Valentina: o que as crianças vêem de noite e ninguém quer ver durante o dia

Valentina: o que as crianças vêem de noite e ninguém quer ver durante o dia

Valentina: o que as crianças vêem de noite e ninguém quer ver durante o dia 498 641 Ana Monção

Valentina

O que as crianças vêem de noite e ninguém quer ver durante o dia

Um dos meus primeiros casos em psicoterapia, ainda estava eu em supervisão, disse respeito a uma adulta, nos seus trinta e poucos anos, que tinha sido abusada sexualmente pelo seu pai em criança. Um dos aspetos mais chocantes da sua história era o facto de ela ter a perceção de que a mãe sabia e fingia que não via, sendo, por conseguinte, conivente com o abuso do pai.

De mãe para filha e de mulher para mulher, essa mãe tinha escolhido aliar-se ao agressor que era o seu marido. Felizmente, no decorrer da terapia a paciente conseguiu confrontar ambos e libertar-se, embora os pais continuassem a negar a veracidade da sua história até ao fim.

Há um filme paradigmático sobre este tema da vivência dramática que se esconde na plácida aparência de algumas famílias, sobre a violência de um pai e a “cegueira” de algumas mães (ou de uma madrasta): Miss Violence (trailer nos EXTRAS deste post). Aqueles pais estavam doentes, mas quem ficou doente foi a filha. Aqueles pais necessitavam de tratamento, mas quem teve de se tratar foi a filha. É nestes momentos que me vem à memória uma frase que resume a essência da psicoterapia: “The purpose of psychotherapy is to set people free” (Rollo May).

Esta semana Portugal inteiro ficou chocado com o caso de Valentina, de 9 anos, agredida brutalmente pelo pai numa casa de banho, com a madrasta a presenciar ao seu lado. Ambos a colocaram num sofá a morrer lentamente, cerca de 13 horas, depois da agressão e foram dormir. Além da violência física e psicológica – o pai terá interrogado a criança enquanto lhe desfechava chuveiradas de água quente e uma pancada no crâneo –, 13 horas e ir dormir… é um sinal de frieza arrepiante.

A Valentina, como criança, teve um duplo azar: ser filha de um pai violento, com antecedentes de drogas e uma vida irregular de dívidas consecutivas, e ter uma madrasta, uma mulher, um ser humano feminino, que também não a defendeu. Ela própria era alvo de agressões por parte do pai de Valentina e tudo indica que nunca se libertou dessa violência. Chegamos a ficar perplexos – ou um pouco repugnados –  com o ar de felicidade da foto em que os dois aparecem como um casal feliz – apesar das vizinhas de Peniche reportarem o pescoço negro com que aparecia.

Tudo uma aparência que se quebrou como uma camada fina de gelo. O sorriso que vemos nas fotos da Valentina escondem uma tragédia que se veio a concretizar. A sua capacidade de ainda mostrar esse sorriso deve-se certamente á mãe biológica que, todos confirmam, a tratava bem, a acarinhava e cuidava dela apesar das dificuldades financeiras.

 

Este sorriso de JOKER (“the show must go on”) já o vi também numa mulher adulta abusada sexualmente pelo tio e cujos pais, sabedores da história, a obrigavam todos os anos a confraternizar com a família de abusadores no Natal.

Não há dúvida: existem “maus pais” e “más mães”. Vejam o filme Tonya, sobre a patinadora artística Tonya Harding ou vejam o filme Judy sobre a vida Judy Garland e perceberão: não é ficção, eles existem. Felizmente, há-os de outra estirpe.

O sorriso de Valentina e essa escondida dor por detrás de muitos meninas e meninas que sofrem às mãos de pais abusivos (os “maus pais” e as “más mães”) lembrou-me esta capa de uma campanha da Associação de Apoio à Vítima em que se lê, tão significativamente que dá dó: “MUITAS CRIANÇAS VÊEM DE NOITE AQUILO QUE NINGUÉM QUER VER DURANTE O DIA”.

O pai de Valentina tê-la-á espancado porque a questionava sobre se tinha sido abusada por um amigo da mãe. Os pais, os bons, espancam OU defendem os filhos quando têm suspeitas de que são abusados? Não conseguimos simpatizar de nenhum modo com este pai e só um psicoterapeuta on duty seria ou será capaz de encontrar na sua história pessoal alguma atenuante para o tratar sem o julgar.

É o lado indefeso, frágil, impotente desta criança de 9 anos à mercê de um pai-animal, de um adulto-monstro, que nos revolta. É o matar da infância que nem chegou a ser. É o ninguém ter conseguido evitar esta tragédia.

A violência doméstica é uma violação do direito das crianças a um ambiente seguro e estável. Pode tomar a forma de violência sexual, física e / ou psicológica, sejam elas próprias vítimas ou testemunhas da violência na família. Portanto, temos mais duas vítimas na história da Valentina: as outras duas crianças que estavam em casa, uma delas pelo menos já testemunhou, o filho mais velho da madrasta. São casos em que retirar os filhos aos pais é uma opção a considerar.

Não é surpreendente que parte da investigação que se debruçou sobre o exercício da paternidade por homens violentos com as suas parceiras tenha concluído haver uma correlação e coexistência de ambos os comportamentos no seio da família. Ou seja, homens violentos com as parceiras, tendem também a sê-lo com os filhos (para leitura: “The Fathering of Violent Men” in Violence against women, 2008; capítulo “Violent Men, Bad Dads? Fathering Profiles of Men Involved in Intimate Partner Violence “da obra Conceptualizing and Measuring Father Involvement, obra The Batterer as Parent: Addressing the Impact of Domestic Violence on Family Dynamics (SAGE Series on Violence against Women).

Estes pais, diz a investigação, são autoritários, rígidos e intolerantes, não estão dispostos a negociar ou aceitar feedback e costumam ver as crianças como seus bens pessoais. São irresponsáveis, negligentes e / ou pouco envolvidos emocionalmente com os filhos. Esperam recompensas da sua parte sem os desafios e sacrifícios da parentalidade.  São autocentrados, não têm empatia e esperam que as crianças atendam às suas necessidades. São manipuladores e culpam os parceiros pelo seu próprio comportamento destrutivo, criando confusão nas crianças sobre quem é o responsável pelo abuso. Criticam e dominam a paternidade do parceiro em frente dos filhos e fomentam a falta de respeito por ele. Podem exigir que as crianças denunciem a mãe ou ameaçam prejudicá-la se ela não obedecer.

A madrasta, numa relação de violência doméstica, motiva-me a deixar um apelo às mulheres adultas: defendam-se psicologicamente de parceiros violentos e procurem ajuda e tratamento. Não há abusador sem alguém que aceite – mesmo sem o desejar- o papel de ser abusado. É preciso que compreendam porque continuam numa relação deste tipo.

Outro alerta para as(os) mais jovens: segundo o Observatório do Namoro, em 11,6% das denúncias as pessoas correram  risco de vida. Sei de alguns abuso psicológico em namoros, quer por parte de rapazes, quer de raparigas e o caso é para levar a sério, pode condicionar a sua vida amorosa para toda a vida.

Um último alerta para todos nós: ensinemos as crianças a protegerem-se se suspeitarmos que alguma perto de nós está em perigo. A APAV tem  conselhos para jovens e crianças na sua página.

Para a Valentina, uma flor. Já não é possível deixar mais nada.

 

EXTRAS:

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