Morreu “Clark Kent” e com ele o Super-Homem

Morreu “Clark Kent” e com ele o Super-Homem

Morreu “Clark Kent” e com ele o Super-Homem 1000 563 Ana Monção

Um homem de quem todos gostavam, Pedro Lima, infligiu-se uma morte violenta, com uma pancada na carótida, no dia 20 de Junho, de uma forma insuspeita depois de estar presente, com toda a normalidade, em gravações no dia 19.

A notícia foi inesperada. Era considerado pelo público como um galã, uma pessoa simpática e um generoso ator e, pelos colegas e amigos, como aquele que tinha a palavra certa quando os outros precisavam e o sorriso sempre presente, um verdadeiro cavalheiro, um pai preocupado e incansável, um companheiro encantador. Sempre afável, sempre disponível, as palavras que deixaram ao Pedro mostram que todos se sentiam felizes em tê-lo a seu lado.

A notícia foi brutal. O país inteiro ficou chocado porque Pedro Lima aparentava ser a pessoa perfeita e a pessoa feliz a todos os níveis… mas matou-se. Ele era, de facto, o mais próximo do que se imagina ser o Super-Homem, afirmou com muita justeza o Nuno Markl. Mas precisamos de reflectir sobre o que esta afirmação significa e significou, provavelmente, para o Pedro Lima.

Preocupações financeiras agravadas pelo Covid 19

Segundo a CMTV o seu amigo e actor António Cerdeira avançou a hipótese de que os problemas financeiros, relacionados com a instabilidade profissional da pandemia de Covid-19, terem tido algum peso neste desfecho. Depressão, desgaste emocional e apreensão pelo futuro financeiro são, então, algumas hipóteses avançadas.

Infelizmente, acredito que sim. Todos temos formas diferentes de lidar com as situações mas há uma altura em que “a bolha rebenta”. Ele que era uma pessoa extraordinariamente responsável, preocupado com os filhos, podia andar a sentir angústia e incerteza em relação ao futuro”, dando a entender que Pedro Lima podia estar a passar por uma depressão. “Há um desgaste que se acentua com a idade”, admitindo, também, que esta fase possa ter “reforçado” alguma “tristeza ou preocupação”

Pedro Lima já tinha aludido a preocupações financeiras anteriormente:

[A Anna] encontrou um terreno com a localização que procurávamos e, feitas as contas, era possível construir casa e ficar com os mesmos encargos com que vivíamos antes. Pedi ao meu amigo de infância, arquiteto Miguel Saraiva, que me ajudasse a pensar e a criar uma casa que pudéssemos pagar e onde coubéssemos todos. O Miguel desenhou uma casa de sonho mas a estimativa de construção ficava acima das nossas possibilidades. Tivemos de reduzir áreas, redefinir materiais e abdicar de alguns pormenores que valorizavam o projeto mas que não tínhamos dinheiro para pagar

Como é que pode ser????, pergunta-se nas redes sociais. As dificuldades financeiras e apreensão pelo futuro fazem algum sentido, nomeadamente no tempo do Covid em que as artes e o audiovisual sofrem um duro golpe. Mas ter dificuldades financeiras, embora possa gerar muita angústia, nem sempre leva ao suicídio. Pode até pensar-se, no meio do desespero, que há sempre uma saída e que é melhor para todos ter um pai ou um marido pobre, ou subitamente empobrecido, do que não ter pai ou perder o companheiro.

Por isso, temos de ir mais fundo.

Uma profissão de grande risco para a saúde psíquica

Por outro lado – e como já tive oportunidade de afirmar em várias ocasiões – a profissão de actor é uma profissão de risco no que diz respeito à saúde psíquica. E digo-o não só porque conheço a vida dura dos actores, como ofereci os meus serviços a duas instituições, uma de teatro, outra de cinema e, embora as instituições tenham respondido positivamente, ninguém recorreu a eles, apesar dos preços baixos por mútuo acordo e da amplitude de horários que levava em consideração horas de ensaio.

O que me leva a afirmar que os actores não aceitam e não reconhecem que têm uma profissão de risco e a sugerir que o façam AGORA. Ou precisam de mais mortes?

Abaixo a ditadura da felicidade. Temos o direito de estar infelizes, de ter problemas e de pedir ajuda. E temos o direito de não mostrar o contrário. Para nosso bem, devia até ser um dever. Que descanse em paz (Carlos Malato no Instagram)

Por que razão as pessoas não recorrem à psicoterapia?

Este comportamento é frequente em pessoas que ficam presas à imagem que devolvem ao exterior. Fazem depender o seu valor, do valor que os outros lhes atribuem (e não do valor interno que atribuem a si próprias). O seu lugar de avaliação está deslocado.

Por estar deslocado estas pessoas tornam-se dependentes do que os outros pensam. Essa dependência, por sua vez, faz com que tenham dificuldade em encontrar-se, o que é o mesmo que dizer dificuldade em saber quem são – porque se procuram fora e não dentro.

Por outro lado, experienciam frequentemente vergonha pelo que consideram falhas enormes que podem beliscar a sua imagem externa. Os Super Homens não deixam transparecer fragilidades, nem procuram ajuda. Falhar pode ser para eles perder a honra.

Finalmente, se tiverem falta de auto-estima, não julgam ter suficiente valor para sere ajudadas, acham que não valem a pena.

Frequentemente perguntam-se: “Para quê fazer psicoterapia se o terapeuta nem me conhece?

Um terapeuta não precisa de conhecer a fundo a vida de uma pessoa para a ajudar. O terapeuta profissional tem o treino e a experiência necessários para apreender a problemática central de uma pessoa numa só sessão e a sua função é ajudá-la a encontrar caminhos alternativos. É precisamente porque, no início, não a conhece a fundo, que usa esse distanciamento do não conhecer para perceber o que se passa nela.

Só por ouvir é capaz de ajudar de uma forma eficaz – do mesmo modo que se vai, por exemplo, a um profissional da área, gastroinstestinal e o médico não precisa de conhecer o doente para ser capaz de ajudá-lo. A psicoterapia tem uma tradição de centenas de anos, escolas desenvolvidas ao longo de séculos, não é uma actividade de pessoas emergentes.

Ser actor, uma profissão de alto risco psicológico

Vários estudos científicos comprovaram que os atores são altamente vulneráveis à depressão e aos sintomas de ansiedade.

O seu bem-estar psicológico é ameaçado pela falta de autonomia na sua profissão, falta de controle sobre o emprego e o ambiente de trabalho em geral, relacionamentos interpessoais complexos, alto nível de autocrítica, alto grau de críticas de familiares e amigos pela sua escolha profissional, além de traumas indirectos que relatam sofrer com as suas experiências de atuação: emocionalmente, intelectualmente e fisicamente podem estar tão envolvidos nos seus papéis que pode ser difícil desconectarem-se deles. Alguns relatam ter pesadelos e pensamentos intrusivos relacionados com os seus papéis.

Mas ser actor, só por si, não conduz ao suicídio. Temos de ir ainda mais fundo.

Corresponder às expectativas dos outros e a baixa autoestima

Já vimos atrás que Pedro Lima agradava a todos e não me parece que sejam só palavras simpáticas depois de uma morte. Gostava de agradar a todos, ser a pessoa perfeita, aquele que nunca tinha problemas…

Em 2018 Pedro Lima deixou excepcionalmente transparecer, numa entrevista à TV Guia, que teria atravessado uma “crise de meia idade” e teria estado deprimido (mas, tome-se nota, deixou transparecer quando considerou, embora erradamente, que já tinha resolvido o problema e não antes.

Se calhar estive deprimido. Não tomei antidepressivos… mas tive alguns momentos de angústia muito grandes. Não sei se isso é depressão ou não, mas agora estou mais equilibrado. Agora sinto-me novo.
Comecei a questionar-me: o que queria? O que era? quem era?… Não tenho muita auto-estima, ou não tinha, por mim, e achava que nada era suficiente (…) Descobri que tenho maior tendência para me preocupar com o não ser, do que com o ser… Mas, felizmente, com a ajuda da família, estabilizei. Agora é que sou o Pedro. Andava muito preocupado em agradar, a corresponder a expetativas… Não estava a ser eu! (sublinhado meu).

Ao contrário do que se pensa, as pessoas que se suicidam deixam rasto. Ou seja, Pedro Lima falou em 2018 e é bom que atentemos no que ele disse:

– que era central na sua vida agradar aos outros, corresponder às suas expectativas, esquecendo-se dele;

– que a sua auto-estima era baixa, ou seja, por detrás de uma aparência feliz não gostava suficientemente de si;

– que sentia que, por mais que fizesse, nunca era o suficiente, expressando um sentimento permanente de auto-insatisfação; “o ser”, aquilo que era, nunca o satisfazia e centrava-se no “não ser”, naquilo que ainda não atingira.

Estas foram as palavras do lado vulnerável que Pedro Lima escondia dos outros. Este era o “Clark Kent” que poucos conheciam.

Preso a uma imagem externa que lhe pesava, desgastado pela luta na profissão e pela exigência em manter um standard e, quem sabe, a honra, não procurou ajuda profissional. Os romanos, quando consideravam não ter condições para manter a sua imagem social, faziam uma grande festa em casa e depois dirigiam-se à casa de banho e punham termo à vida dentro de uma banheira, cortando as veias.

Várias celebridades como Jennifer Aniston, Justin Bieber, Michael Jordan, Ema Stone e muitos outros procuraram ajuda de um psicoterapeuta profissional.

Ao contrário de Pedro Lima aperceberam-se a tempo que a vida não é um palco.

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