Ruben Couto e Beatriz Lebre: um homicídio imprevisível?

Ruben Couto e Beatriz Lebre: um homicídio imprevisível?

Ruben Couto e Beatriz Lebre: um homicídio imprevisível? 1000 806 Ana Monção

Podia ser nossa filha, irmã, neta, colega, amiga e foi assassinada no dia 22 de Maio por um colega da mesma idade por dizer NÃO a uma relação.

Segundo a imprensa – e sou levada a estar de acordo – parece ter sido a obsessão doentia por Beatriz Lebre, a incapacidade em digerir a rejeição e os ciúmes que conduziram Ruben Couto ao homicídio. E- temos de acrescentar com toda a certeza e até relevar – o estado mental já perturbado do rapaz de 25 anos.

No dia 14 de Maio num  artigo deste Blog dedicado ao caso de Valentina escrevi: “Outro alerta para as(os) mais jovens: segundo o Observatório do Namoro, em 11,6% das denúncias as pessoas correram  risco de vida. Sei de alguns abuso psicológico em namoros, quer por parte de rapazes, quer de raparigas e o caso é para levar a sério”. E agora surge-nos mais esta notícia arrepiante. Muita violência em muito pouco tempo.

Segundo alguma imprensa NADA faria prever o comportamento do Ruben Couto que indiciaria a tragédia. Nada? Este caso deixa-nos algumas perguntas: Como é possível que um voluntário dedicado a crianças sem abrigo seja capaz de matar? Como é que uma licenciada em Psicologia não se apercebeu da gravidade da situação? Questões a que convém responder: trata-se de aprender a identificar sinais de alerta no comportamento de pessoas patológicas.

Estou em crer que Beatriz Lebre se apercebeu mas não valorizou o suficiente no sentido em que não denunciou o suficiente, espalhou, alertou sobre o que via ou pressentia. O avô já declarou que Ruben a perseguia. Os colegas referiam-se ao reatado namorado de Beatriz em código para que Ruben Couto não percebesse. Intuíam. Ora sentir-se perseguido constitui um dos sinais alarmantes de uma relação de que se deve ter medo. Sinais a valorizar e a denunciar. É este o sentido que quero dar a este artigo.

Primeira fase: a reacção pública, emocional

As emoções são nossas amigas. São o nosso alerta do que vai mal, e são o bom alerta do que vai bem. São sinais de referência, lanternas que nos mostram como sentimos, o que pensamos e nos guiam na vida. Não devemos evitá-las mas saber lê-las.

O horror, a indignação pública e mesmo o desejo de punição invadiram as redes sociais e dirigiram-se a Ruben Couto, tratado como perverso, assassino, monstro, doente.

Perpétua para estes monstros. Tirar a vida só porque sim um psicopata a tirar psicologia e deu cabo de uma vida. Mentes criminosas

QUAL PINGA-AMOR CHARMOSO QUAL QUÊ! é um assassino e BASTA!!! não soube ouvir um NÃO e continuou até ter este resultado. já disseram mas eu repito, o que aconteceu à Beatriz Lebre pode acontecer a qualquer uma de nós. não temos de ter medo de dizer não!

Suspeito?
Depois de confessar deixa de ser suspeito e passa a arguido.
Monte de esterco que tirou a vida a uma miúda impecável e cheia de vida. Só esperar que durante a pena alguém o faça passar por aquilo que a família está a passar, dor eterna e sofrimento angustiante. Que não tenha um só momento de alegria e que nunca mais saiba o que é sorrir.

Nas redes sociais também se expressou a compaixão para com os familiares de Beatriz e para com ela própria e, porque não, para os familiares de Ruben Couto?

“Que seja feita justiça e esse psicopata sofra na prisão. Aos familiares da Beatriz, deixo aqui o meu pesar, descanso eterno para alma dela. Vida interrompida, missão cumprida na vida terrena para a jovem Elvense, foi um caminho de vida lindo. Sinceros sentimentos a família.

Uma jovem sonhadora com os sonhos interrompidos.”

Segunda fase: compreender. A dupla face dos homicidas

A coexistência de duas faces, dois tipos de comportamento paralelos, antagonistas, é frequente em pessoas que se revelam homicidas. São frequentemente socialmente simpáticos, charmosos, bem falantes, inteligentes, instruídos, insuspeitos. Mas, mais cedo ou mais tarde, cometem “deslizes”, revelam a sua natureza.

São de Ruben estas reveladoras frases dedicadas aos Ornatos Violeta:

“A ressonância do melhor que há em ti [Manuel Cruz, líder da banda] continua a fazer tremer o monstro que há em mim”

Neste VIDEO, publicado pelo Correio da Manhã,  Ruben Couto manifesta bons sentimentos e altruísmo na sua actividade de voluntariado em Moçambique e, no entanto, foi capaz de matar. Foi esta mesma pessoa que, depois do corpo ter desaparecido (atirado ao rio pelo próprio) fingiu colaborar na sua procura com a mãe de Beatriz.

Ted Bundy, um dos mais conhecidos serial killers (assassinos em série) é o caso paradigmático do homem atraente que escondia uma raiva profunda contra as mulheres e as matava de forma fria e planeada. Era psicólogo, movia-se bem nas esferas políticas, era atraente, sorridente, podia ser – como se diz nestes vídeos que ajudam a perceber a perturbação destas mentes – “o vizinho do lado”.

Terceira fase: identificar sinais de alerta de uma relação obsessiva

O primeiro aspecto a compreender é que uma relação amorosa obsessiva não é uma relação saudável, é uma relação destrutiva. Aquele(a) que sofre de amor doentio (mas também existem casais, dois de uma só vez, a ter uma relação doentia), traz para a relação (real ou imaginada) os seguintes comportamentos:

  • uma atração avassaladora, desmesurada, incontrolada por uma pessoa, aliada a
  • pensamentos obsessivos, ruminadores, incontroláveis sobre a pessoa. Ou seja, uma uma incapacidade em não pensar senão nessa pessoa independentemente da própria vontade
  • necessidade de “proteger” a pessoa amada; na realidade essa vontade de proteger esconde uma necessidade de controlar o (a) parceiro (a)
  • ciúme extremo por outras interações interpessoais que o (a) parceiro (a) tenha
  • baixa autoestima, medo de ser abandonado e rejeitado; uma história pessoal e familiar por hipótese conturbada e possíveis antecedentes psiquiátricos

Do ponto de vista da potencial vítima, estar alerta aos seguintes sinais:

  • ser perseguido
  • receber textos, e-mails e telefonemas repetidos
  • sentir medo pela segurança própria
  • começar a sentir dificuldade em fazer amizades ou manter contato com familiares por causa do(a) parceiro(a)
  • sentir-se controlado nos desejos próprios, na liberdade de sai, ter opiniões, fazer opções de vida e sentir que lhe estão constantemente a monitorizar as acções
  • sinais de excessivo ciúme mesmo quando não há razões objectivas para que isso aconteça.

É necessário distinguir o ciúme considerado normal numa relação madura e saudável, do ciúme patológico que difere do anterior pela sua irracionalidade e absurda intensidade. Indivíduos com ciúme obsessivo têm ruminações desagradáveis e irracionais de que o parceiro possa ser infiel, acompanhadas por uma verificação compulsiva do seu comportamento.

Se sentirem alguns destes sinais, informem os amigos, familiares, a polícia, os colegas, recorram a um psicoterapeuta para pedir ajuda, para se libertarem. Do comportamento obsessivo à violência, psicológica ou física, pode ir um passo. Quanto mais forte for a rede, menor o perigo.

Recomendo finalmente a leitura deste livro “Os manipuladores do amor”. A manipulação nas relações ~presente também nos homicidas mas não só, em muitas relações amorosas quotidianas-  também é uma outra forma de violência psicológica que convém entender. Refiro-me a casos que não são notícia de jornal e fazem sofrer inúmeras pessoas nas suas relações amorosas todos os dias.

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