Idosos: os mais frágeis da sociedade face ao Covid-19?

Idosos: os mais frágeis da sociedade face ao Covid-19?

Idosos: os mais frágeis da sociedade face ao Covid-19? 1180 787 Ana Monção

Idosos

Os mais frágeis da sociedade face ao Covid-19?

No tempo do Covid-19, Flávio Migliaccio, actor brasileiro de renome internacional, cometeu suicídio aos 85 anos. Deixou uma carta que só parcialmente conhecemos, já considerada pela imprensa brasileira não “carta de suicídio” mas “carta-manifesto”, “apelo”, “alerta ao mundo em que vivemos”. Na verdade, em vez de endereçar a missiva à família, deixou o bilhete a nu para que qualquer um o pudesse encontrar e ler – como foi o caso do seu caseiro e todos nós que a lemos através da imprensa.

Desculpem-me, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos como tudo aqui. A humanidade não deu certo”. Tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este e com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje

Desgostoso com o seu envelhecimento[1], revoltado com a política do seu país, indignado com a censura em relação a outros colegas como Fernanda Montenegro[2] e ainda com a discriminação dos idosos durante a pandemia, para Flávio o sentido da existência desapareceu. Maltratado na sua classe artística, vendo a ditadura contra a qual lutara voltar, não lhe bastasse estar nos 85, ouviu o Ministro da Saúde brasileiro afirmar, como médico, que entre um paciente jovem e um idoso não havia dúvidas sobre quem priorizar. Bolsonaro chegou mesmo a defender que apenas os idosos fossem isolados.

(Notas:

1] O filho afirma que o pai já se encontrava em grande depressão por aceitar mal a sua deterioração física. Significativamente, em 2017 Flávio encenou, escreveu e foi actor da Peça ” Confissões de um senhor de idade” em  reflectia sobre a sua vida e o seu sentido, desde a infância até à sua idade actual. Era, pois, um assunto que lhe ocupava a mente desde então.

[2] “Vestida de preto e amarrada, tal como uma bruxa pronta a ir para a fogueira feita com todos os livros proibidos – é assim que a atriz brasileira Fernanda Montenegro aparece na capa da edição de outubro da revista Quatro Cinco Um, especializada em literatura. A foto remete para a caça às bruxas da Idade Média e é, obviamente, uma tomada de posição contra a censura no Brasil dos dias de hoje. “Salvem os livros. E as bruxas”, pede o título da revista.” (in  Diário de Notícias). Em resposta “Roberto Alvim, responsável pelo Centro de Artes Cénicas da Funarte, está determinado a combater oposição de classe artística: ‘Todos que me atacam são inimigos mortais do governo’ (in  Globo.com)

Fim de nota)

Sem conseguir ver os netos nem os filhos, na sua maioria sem dominar o mundo digital, restringindo-se à televisão e à rádio, os idosos queixam-se na pandemia do isolamento. Mas queixam-se como todos nós. Só que fisicamente estão mais velhos e o envelhecimento é duro de roer. O que não quer dizer que tenham baixado os braços.

Paradoxalmente – pelo menos para mim- foi-me me difícil encontrar na web imagens positivas de idosos. Geralmente aparecem inactivos, expõem-lhes as deficiências, fotografam-nos com expressões desanimadas, uma espécie de mortos-vivos por antecipação.

Mas nem todos vivem assim a idade avançada. Esta imagem é, em grande parte, falsa: muitos idosos estão em actividade profissional, trabalham na restauração, em actividades artesanais, no comércio, são empresários, escritores, pintores, filósofos, dão conferências, dirigem orquestras, dançam ainda aos 70 e muitos, dão consultoria… E mesmo quando já têm deficiências, contornam-nas e continuam a sentir-se úteis. Já para não falar no papel importantíssimo que continuam a desempenhar na família.

Porém, à força de se vender essa imagem negativa, às vezes ela entranha-se nos idosos e no olhar que os outros lançam sobre eles. É isso que temos de evitar: a desmoralização e a discriminação. Se lhes devolvêssemos outra imagem, por actos e palavras, sentir-se-íam eles assim desmoralizados?

Num vídeo de despedida, o colega de trabalho de Flávio, Lima Duarte, agora com 95 anos, afirma que o entende e usa esta expressão –  ‘devastação dos velhos’:

Agora, quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafio terrível de 68, agora, 56 anos depois, quando eles promovem a devastação dos velhos, não podemos mais

Esta temática – a “velhofobia” – é sempre actual, tanto mais que todos lá chegaremos. Por isso pedimos o testemunho de dois idosos no tempo da pandemia em Portugal. Quisemos saber como se sentem ao serem tratados como os mais frágeis da sociedade face ao Covid-19.

Mas, para além das suas palavras, deixarei vários vídeos num próximo post. Todos eles demonstram que velhos… são os trapos.

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