Mudança Terapêutica – introdução

Mudança Terapêutica – introdução

Mudança Terapêutica – introdução 1626 1215 Ana Monção

Rogers (1959 e 1961b1994) descreveu o processo de mudança durante a terapia distinguindo-lhe vários estádios através dos quais o cliente se movimenta de uma posição de experienciação (experiencing) remota para uma aceitação da experiência.

Rogers rejeitou a possibilidade de descrever esse processo nos termos em que o fizeram as teorias da aprendizagem, as teorias da comunicação (conceitos de feedback, sinais de output e input) ou uma teoria geral dos sistemas: segundo ele “… what is needed first is to steep oneself in the events, to approach the phenomena with a few preconceptions as possible, to take a naturalistic’s observational, descriptive approach to these events, and to draw forth those low-level inferences which seem most native to the material itself” (1958: 142). De acordo com esta convicção, Rogers fez de si uso enquanto instrumento ouvindo durante horas e o mais ingenuamente possível o registo das suas sessões de terapia, tentando capturar elementos que pudessem ser sinalizadores de mudança, e formulando posteriormente hipóteses.

Esta observação naturalista permitiu-lhe chegar à conclusão que o processo terapêutico engloba várias linhas de força — vivência dos sentimentos, modo de experienciar, comunicação do eu, construções pessoais, relações interpessoais, relação do indivíduo com os seus problemas, passagem da incongruência à congruência– a princípio separadas, mas que se tornam cada vez mais uma unidade à medida que o processo se desenrola: “… o processo parte de um ponto de fixidez onde todos os elementos e linhas de força atrás descritos são facilmente discerníveis e compreensíveis isoladamente, até ao ponto culminante da terapia em que todas essas linhas de força convergem de modo a formar um todo homogéneo” (1961: 139).

Independentemente do número de estádios distinguidos no processo terapêutico, Rogers insiste que se trata de um contínuo (ibidem: 114) em que todos os pontos intermédios persistem: ”Comecei a compreender que os indivíduos não se movem a partir de um ponto fixo ou homeostático para um novo ponto fixo, embora um processo desse género seja possível, mas o contínuo mais significativo é o que vai da fixidez para a mudança, da estrutura rígida para o fluxo, de um estado de estabilidade para uma realidade processual” (ibidem: 113, itálico meu).

O processo terapêutico pode, segundo Rogers (ibidem: 119), ser encarado sob duas perspectivas: 1) sob uma perspectiva quase exclusivamente fenomenológica — a partir do quadro de referências do cliente, ou 2) pela captação das qualidades de expressão que podem ser observadas por outrem — perspectiva que se situa, pois, num quadro de referências externo. Foi dentro desta segunda perpectiva que Rogers emitiu a hipótese provisória de que “… talvez as qualidades de expressão do paciente pudessem em qualquer momento indicar a sua posição no contínuo, indicar onde se encontra no processo de mudança” (ibidem). É, efectivamente, a partir do comportamento verbal dos seus clientes que Rogers delineará sete estádios no processo terapêutico dos quais nos fornece ampla exemplificação nos seus trabalhos de 1958, 1959 e 1961.

Para Rogers a mudança que se opera, no decurso do processo terapêutico, na personalidade do cliente e no seu auto-conceito — mudança essa que pode ser inferida, entre outros factores, a partir da sua expressão verbal — deve-se nomeadamente a três factores: à existência, em cada indivíduo, de forças ego-integradoras, à ausência, na situação terapêutica de algum factor que ameace o eu, e a um conjunto de atitudes por parte do terapeuta que conduzam o cliente a focalizar-se na percepção de si próprio. Como o eu, tal como está organizado, tem tendência a rejeitar experiências que não são consistentes com o auto-conceito organizado, um clima de aceitação incondicional positiva favorece a reintegração dessas experiências negadas. Por outro lado, o terapeuta, reagindo às atitudes e sentimentos em vez de reagir aos objectos desses sentimentos e atitudes, e oferecendo comprensão e ausência de avaliação, conduz o cliente a estar mais atento à percepção do eu e a reagir a ele.

No seu artigo de 1947 “Some observations on the organization of personality” — Rogers teoriza, de forma privilegiada, sobre as mudanças na personalidade que ocorrem no cliente durante o processo terapêutico. A Terapia Centrada no Cliente parece-lhe um meio de eleição para observar, na sua forma mais pura, a dinâmica da personalidade por dois motivos: em primeiro lugar porque o registo audio e video das sessões de terapia — instrumento introduzido por Rogers e que teve amplas implicações na prática psicoterapêutica, na formação de psicoterapeutas e na investigação — permite um exame microscópico da personalidade em mudança (ibidem: 358); em segundo lugar, porque este tipo de terapia coarta ao mínimo a expressão verbal do cliente.

Efectivamente, nesta terapia de carácter não directivo não só as intervenções do terapeuta em que este revela o seu ponto de vista são em grau reduzídissimo, como a sua atitude de calor, de compreensão e de não avaliação impulsionam o cliente a falar de forma aberta não só de atitudes superficiais, mas igualmente de atitudes e sentimentos íntimos escondidos do terapeuta e até dele próprio (ibidem: 258-259).

(13 de Maio de 2016)

(continuar a ler: em breve)

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