Mudança terapêutica (2, continuação)

Mudança terapêutica (2, continuação)

Mudança terapêutica (2, continuação) 365 700 Ana Monção

Rogers (1947) parte da hipótese, que defende e de que mostra as implicações, de que durante a terapia ocorre uma alteração do eu, com uma concomitante alteração na percepção da “realidade” e, consequentemente, no comportamento. Se o indivíduo adquire uma visão diferente do seu mundo, da sua experiência e inclusivé de si próprio, essa visão não depende de uma mudança da “realidade”, mas é o produto de uma reorganização perceptiva interna. A modificação do comportamento não é, para Rogers, directamente influenciada ou determinada por factores orgânicos ou culturais, mas por essa alteração de percepção (ibidem: 359).

A questão está para ele em saber de que modo se produzem, durante a terapia, tais alterações. Se a reorganização das auto-percepções modifica o comportamento, se o desajustamento ou ajustamento dependem da congruência entre o eu, tal como este é percepcionado, e o modo como as percepções são experienciadas, então a questão torna-se pertinente.

No artigo já citado de 1947, Rogers formula detalhadamente as suas hipóteses sobre a mudança na personalidade e no auto-conceito, debruçando-se sobre as suas implicações:

Hipótese 1: O comportamento é determinado pelo campo perceptivo do indivíduo.

Esta hipótese implica tentar ver e compreender a pessoa a partir do seu quadro de referências (ver o seu mundo tal como ela o vê), e não vê-la, compreendê-la ou avaliá-la enquanto objecto, a partir do nosso quadro de referências.

São apontadas consequências várias resultantes desta nova perspectiva: a minimização da importância das histórias de caso que contêm informação da pessoa como objecto; a atribuição de um valor menor aos procedimentos psicométricos através do quais se mede ou valoriza o indivíduo a partir do quadro de referências do terapeuta; o colocar de lado os rótulos psicopatológicos (paranóico, esquizofrénico, compulsivo, etc) que se tornam irrelevantes porque se baseiam num sistema de pensamento apoiado numa referência externa (estes rótulos, segundo Rogers, não descrevem o modo como o indivíduo se experiencia). Como sumariamente conclui “If we consistently studied each individual from the internal frame of reference of that individual, from within his own perceptive field, it seems probable that we should find generalizations which could be made, and principles which were operative, but we may be very sure that they would be of a different order from these externally based judgements about individuals” (Rogers 1947: 367, subl. meu);

Hipótese 2: A integração e o ajustamento são condições internas relacionadas com o grau de aceitação ou não aceitação de todas as percepções, e com o grau de organização dessas percepções num sistema consistente.

Esta hipótese tem implicações no procedimento clínico: implica o abandono da ideia segundo a qual o ajustamento ou desajustamento são dependentes do carácter, favorável ou não, do ambiente. Esta hipótese exige uma concentração nos processos que conduzem à integração do eu, e o abandono dos procedimentos clínicos que utilizam a alteração do ambiente como método de tratamento. A pessoa que está internamente unificada tem possibilidades muito maiores de resolver construtivamente os problemas com o ambiente, seja de forma individual, seja em cooperação com os outros;

Hipótese 3: O eu é, sob de determinadas condições, capaz de alterar o seu campo perceptivo e o seu comportamento.

Esta hipótese coloca ênfase numa psicologia que recusa a fixidez dos atributos e capacidades psicológicas e se concentra no processo, ou seja, na alterabilidade dessas características. Enquanto que a psicologia se tinha anteriormente preocupado em medir as qualidades fixas do indivíduo e em explicar o presente através do passado, esta hipótese sugere que se valorize o presente de forma a compreender o futuro, e se prediga o futuro de acordo com os princípios, a definir, que estão na base da alteração da personalidade e do comportamento.

(a continuar)

(in Ana Monção (2001), Dissertação de Doutoramento)

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