“Em tudo o que fiz bem pus um pouco de ti” – o Dia da Mãe

“Em tudo o que fiz bem pus um pouco de ti” – o Dia da Mãe

“Em tudo o que fiz bem pus um pouco de ti” – o Dia da Mãe 250 141 Ana Monção

“Em tudo o que fiz bem pus um pouco de ti”

Dia da Mãe

No Dia da Mãe o Paulo Moreira aceitou ler este poema belíssimo do José Luís Peixoto.

Apercebo-me que, no tempo do COVID-19 são muitos os filhos que não visitam os pais por medo de infectarem e ser infectados.

Sabendo nós actualmente que, estando duas pessoas equipadas de máscara cirúrgica e luvas e, se quiserem, ainda a 2 metros de distância, a protecção é de 95%, não vejo razão – relacionada com a quarentena -para não fazerem uma visita à mãe (ou aos pais) se estiverem todos a obedecer às normas de segurança.

Com a insistência de que os idosos são os mais frágeis, podemos estar a deixar os nossos pais em situação de vulnerabilidade psicológica. Não são só problemas físicos que matam, a solidão também mata.

Não basta – é a minha opinião, mas cada um fará o que entender – deixar compras na porta e telefonar. Uma visita uma vez por semana com as devidas precauções – e só neste caso – parece-me o mínimo essencial. Falar em presença, sentir a presença, é importante. Não são só eles que ganham. Todos ganham em afecto, partilha e estabilidade emocional.

Eis o teu rosto iluminado por esta hora de maio.
Ao filho autêntico, basta fechar os olhos para encontrar o rosto da sua mãe.
A fronteira que separa o dentro do fora é vaga de propósito, mais exata é a fronteira dos meses.
Mãe, as tardes de maio não são um acaso.
Pus um pouco de ti naquilo que fiz de mais importante.
Onde existir terra estás tu, dás força e horizonte.
O ar não permitiria respiração se não te contivesse.
A água não seria capaz de alimentar sem a tua presença líquida.
O fogo não chegaria a acender se não incluísse o teu mistério no seu mistério.
Estavas já no primeiro início do firmamento, nesse rugido que encheu a superfície do céu e da terra, que rasgou as trevas; da mesma maneira, estarás no seu último fim.
Estás antes e depois.
Estás na lenta passagem da eternidade.
Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.
Sabes que criei tudo o que há e sabes também que não criei tudo o que poderia haver.
Entre as faltas evidentes, estão palavras capazes de dizer a tua beleza.
Indistintas do silêncio, essas palavras esperam por um tempo que não chegará e, assim, fazem com que a tua beleza seja impossível.
Essa é a natureza do divino, existe e é impossível.
Mãe, a falta de palavras para dizer a tua beleza não é um acaso.
A tua beleza não quer ser dita, prefere ser contemplada.
Os olhos não têm a ambição de possuir.
A tua beleza é a tua liberdade.
Por isso, mãe, por amor e respeito, pus um pouco de ti em tudo o que fiz.
Não se pode olhar para qualquer ponto desta obra sem te ver.
Mãe, este instante não é um acaso.
Em tudo o que fiz bem pus um pouco de ti.

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