Consequências psicológicas do Covid 19: estudos, dados e soluções

Consequências psicológicas do Covid 19: estudos, dados e soluções

Consequências psicológicas do Covid 19: estudos, dados e soluções 740 960 Ana Monção

O video com que iniciamos este artigo mostra, recorrendo a conhecimentos da Física, que o distanciamento social funciona para não infectarmos nem sermos infectados pelo Covid 19.

Porém, se o distanciamento social é útil para protegermos a nossa integridade física, ele não é salutar para a nossa saúde mental.

É o que podemos deduzir de vários estudos que se têm debruçado sobre o impacto psicológico da quarentena, essa consequência nefasta das pandemias.

O que já sabemos sobre as consequências psicológicas das quarentenas

Uma publicação de 20 de Março de 2020 da revista científica The Lancet faz uma revisão de 3166 outros artigos científicos sobre o tema durante passadas pandemias e epidemias – o SARS II, o Ébola, o H1N1, a Influenza equínea e o síndrome respiratório do Médio Oriente (Brooks et al.,The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence).

Ou seja, quando ocorre uma quarentena estamos em condições de saber à partida quais as suas consequências a nível psicológico. Beneficiar dessa informação pode, por um lado, permitir prevenir-nos, por outro a lado levar-nos a agir para restaurarmos a nossa saúde mental.

São comuns às quarentenas as seguintes consequências, aqui ilustradas em fotos:

a separação das pessoas que amamos (*foto da Vogue com um título adicional também emocionalmente expressivo – Freedom on Hold/Liberdade em suspenso)

Consequências psicológicas do Covid 19

a incerteza acerca do futuro (*foto da Rai News que mostra protestos que ocorreram em várias cidades da Alemanha relativamente ao fecho da restauração)

a perda de liberdade (*foto da Rai News em que músicos procuram a liberdade e isolamento dos terraços de Teerão para tocar)

o medo de infectar e ser infectado (*notícia do DN on line sobre o medo irracional de ser infectado que leva à estigmatização dos profissionais de saúde pelos vizinhos)

São igualmente sentimentos negativos recorrentes durante as quarentenas a raiva ou zanga, a depressão, a irritabilidade, insónia, tristeza, medo (que pode ir até ataques de pânico), apreensão, exaustão emocional, ansiedade e stress .

A saúde mental dos portugueses na quarentena

De acordo com um segundo estudo realizado entre 21 de Março e 10 de Abril deste ano, baseado em 160.157 respostas, cerca de 82 por cento dos portugueses sente que o coronavírus está a ter algum efeito negativo na sua saúde mental.

O estudo, da Escola Nacional de Saúde Pública (Portugal), reporta que um quarto se sente ansioso, em baixo  ou triste “todos os dias” ou “quase todos os dias”; um terço dos inquiridos assinala distúrbios de sono, 23% confessa estar sempre a pensar no Covid-19.

Como estão os jovens e os idosos?

O inquérito do Barómetro Covid-19 da ENSP-NOVA revela ainda que os jovens foram os que mais começaram a tomar ansiolíticos e antidepressivos durante a pandemia. Também os idosos admitem ter aumentado a dosagem. No post “Idosos: os mais frágeis da sociedade face ao Covid?” neste Blog já falámos sobre o sentimento de discriminação vivido pelos idosos durante a pandemia.

Um inquérito belga online levado a cabo pelo Instituto de Saúde Sciensano, realizado com 44 000 belgas entre os dias 2 e 9 de Abril de 2020, demonstra que as perturbações da ansiedade (20%) aumentaram consideravelmente desde o início do Covid 19, se comparado com o inquérito similar efectuado em 2018 (de 11%), As mulheres sofrem mais destas perturbações do que os homens (24% contra 16%).

A prevalência destes distúrbios diminui com a idade, a partir dos 45 anos. No entanto, essa prevalência duplicou para os rapazes e triplicou para as raparigas entre os 16 e 24 anos desde o início da pandemia.

Repercussões psicológicas pós-pandemia

Um interessante resultado do estudo da revista The Lancet revela que quanto mais tempo dura a quarentena, mais perduram as consequências psicológicas no pós-quarentena.

O retorno à normalidade – depois de cessar a quarentena – pode levar meses e as pessoas continuam a mostrar, por exemplo, comportamentos de evitamento: evitam pessoas que tossem ou espirram, lugares com muita gente ou os espaços públicos em geral, continuam a lavar as mãos frequentemente, sofrem por se terem sentido estigmatizadas e evidenciam sinais de stress pós-traumático, reacções que perduram durante muito tempo (estimado entre quatro a seis meses, em particular para pessoas já com doenças psiquiátricas).

Como agir?

Em termos pessoais, podemos desde já tirar as seguintes conclusões: quanto mais a quarentena durar mais força psicológica vamos precisar para aguentar – precisamos de nos prevenir com medidas práticas (falarei proximamente de algumas); a segunda conclusão será a de que devemos cuidar da nossa saúde mental procurando profissionais certificados quando a luz vermelha começar a piscar.

A minha experiência profissional diz-me que há a tendência para deixar arrastar o mal-estar psicológico até muito depois da luz de alerta. Porque não queremos assumir que estamos mal, porque aprendemos que primeiro vem a saúde física, a mental deixamos sempre para último. Nada menos acertado: a saúde mental e a física são indissociáveis e se agirmos rápido, mais cedo e a menos custo pessoal nos libertamos dos nossos problemas.

Não é vergonha nenhuma pedir ajuda, como bem se deu conta na vida o famoso nadador Michael Phelps que nos deixa um eloquente vídeo sobre o ter recorrido à psicoterapia (vejam no final deste artigo).

Em que posso ajudar?

Para além dos meus posts em diversas redes sociais e artigos no Blog, através dos quais tentarei chegar às vossas preocupações e intervir socialmente, existe neste momento na minha página de entrada do Blog, na parte inferior, dois botões que facilitam a comunicação comigo via Whatsapp e Facebook. Esclareçam dúvidas, deixem perguntas que gostariam de ver respondidas.

Existe igualmente um botão para Marcação e outro para Preçário. Sim, esta é a minha profissão, estes são os meus serviços, esta é a relação de ajuda que posso prestar neste momento de pandemia e fora da pandemia, já que nem todos os problemas da existência que fazem de nós humanos têm a ver com este momento em particular.

O distanciamento social: continuamos a lutar contra ele!

Uma das mais sentidas consequências da quarentena é o sentimento de isolamento resultante do distanciamento social. Não poder ser tocado, abraçado, beijado é uma das restrições mais difíceis de viver e aceitar.

Sempre como nota positiva, deixo-vos um vídeo animado que demonstra a nossa inventividade para procurar estarmos o mais próximos possível, apesar de tudo.

EXTRA:

HISTÓRIAS DE VIDA: Michael Phelps, campeão mundial de natação, medalhado 28 vezes, compartilha connosco como recorrer à psicoterapia o ajudou ultrapassar a depressão e a ansiedade e lhe mudou a vida. Se quer saibar mais sobre Phelps leia aqui .

2 comentários
  • Olá Ana,

    Gostei muito deste tema, diz me muito, a minha mãe tem 73 anos, e nós os filhos temos a obrigado a ficar em casa para a proteger. posso dizer que as primeiras semanas foram muito agressivas para ela, o isolamento social, foi muito doloroso. Felizmente agora está mais adaptada, mas sem estar conformada.

    Um grande abraço

    • Obrigada por deixar aqui o seu testemunho. A preocupação em proteger os pais já com uma certa idade é compreensível e louvável e já me debati com a mesma questão. Sou, porém, de opinião que podemos minorar a nossa preocupação e o isolamento deles se, pelo menos uma vez por semana, um filho de cada vez, os pudermos visitar nas seguintes condições: equipando-os com máscaras cirúrgicas (as mais eficazes em termos de protecção), se nos equiparmos da mesma forma (já garantimos 95 a 98% de impossibilidade de contágio), deixarmos os sapatos numa caixa à entrada e usarmos todos gel ou lavarmos as mãos à entrada e saída. E podemos conversar a 2 metros de distância. A nossa preocupação em não os contaminarmos pode estar a conduzir-nos e aos nossos pais a um extremo desnecessário: a um isolamento grande, à solidão e a a uma não partilha mútua de afectos de que tanto precisamos. Se o desconfinamento com todas as suas restrições se prolongar por muitos mais meses, vão eles aguentar tanto tempo? É essa, também enquanto filha, a minha preocupação que partilho aqui hoje consigo. Mas só cada um, equilibrando o que é racional (não contaminar) e emocional (gostamos deles e não queremos que sofram por estarmos longe), é que pode encontrar a sua resposta individual. Um abraço também e tudo de bom para a sua família!

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